E agora, Murray?
O sucesso na era do salary cap e os desafios de Bob Murray para recolocar os Ducks no caminho da Stanley Cup
08-11-2018
Escrito por: Danilo Fredo
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O nosso querido Anaheim Ducks vive um começo de temporada turbulento em que a equipe, após ter iniciado com vitórias surpreendentes nas primeiras partidas, agora mergulhou numa crise que pode gerar grandes mudanças estruturais. Dentre os times da divisão, a equipe que menos repôs os desfalques da offseason foi o nosso, e se manter como favorito em uma divisão tão competitiva como a do Pacífico, e que além do mais, agora tem Ilya Kovalchuk no Los Angeles Kings e Erik Karlsson no San Jose Sharks, era utopia de quem não acompanha o time de perto. 

Mesmo com uma reunião entre o staff e os jogadores para discutirem sobre os resultados recentes, a boa notícia é que os holofotes, desta vez, não estão em cima dos Ducks.

Sair do foco para ganhar tempo, reestruturar a casa e voltar a ser de fato competitivo, pode ser a grande carta na manga para o time do Condado Laranja. Para isso, uma receita simples precisa ser seguida: Primeiro você troca bons jogadores por escolhas de draft. Depois, utiliza-se das escolhas para adicionar talentos que serão encaminhados às ligas afiliadas ou ligas de desenvolvimento e então, uma das partes mais críticas, você remonta a sua equipe para que estes atletas sejam protagonistas. Simples, na teoria, claro! 

Imagino que muitos torcedores dos Ducks estejam agora confusos. Vamos falar sobre essa nova fase…

Nós, torcedores do Anaheim Ducks, não estamos familiarizados com esta receita. Não faz parte da nossa realidade falar em tank, reestruturar o elenco ou “sair vitorioso na loteria do draft”. O nosso querido time que veste um dos uniformes - se não, todos -, dos mais bonitos da NHL, está acostumado com títulos da divisão e disputa de playoffs. Muitas vezes, com o mando do gelo. É a era Ryan Getzlaf e Corey Perry

Em 12 anos, desde o título da Stanley Cup, para cá, vencemos a divisão 6 vezes, e em apenas duas temporadas (2009-10 e 2011-12), não seguimos para o mata-mata. Em 2013-14 houve o último realinhamento de conferências na NHL, e os Ducks nunca fizeram menos que 100 pontos na temporada regular, faturando o President’s Trophy duas vezes neste período. 

É muito sucesso e precisa ser reconhecido, apesar de apenas um título. Importante lembrar que estamos falando de hóquei no gelo e não de futebol aqui. São culturas diferentes. Um time que chega tantas vezes aos playoffs, mesmo não vencendo o campeonato, é considerado um time vencedor por lá, enquanto aqui no Brasil e no futebol, este time é mais perdedor do que aqueles que nem chegaram perto dos jogos decisivos. Dito isso, também é importante frisar que estes insucessos têm um preço alto e os Ducks estão começando a pagar esta dívida diante de nossos olhos.

O fato de terminarmos a temporada regular sempre entre os primeiros, fez com que o time só tivesse duas picks entre as 10 escolhas gerais nos drafts desde que a franquia mudou de nome em 2006: Hampus Lindholm e Nick Ritchie. Além disso, para manter o time competindo e em alto nível, oferecendo aos medalhões uma sobrevida com o objetivo de conquista do título, o gerente geral Bob Murray se desfez de muitas escolhas de draft ano após ano. Por si só, este não é um argumento sustentável, porque os Ducks escolheram bons jogadores com as picks restantes. Porém, nenhum deles tem potencial de ser uma grande estrela da NHL, ninguém com capacidade de assumir o protagonismo. E na cabeça de Murray, nem precisavam ser, porque Getzy e Perry ainda estão no elenco. Aliás, são muito bem pagos para exercerem a função de líderes dentro e fora do rinque. Só que Murray está sendo vítima das suas próprias apostas. Com certeza ele imaginava que com a idade mais avançada, Perry teria uma queda de rendimento significativa e Getzlaf poderia sofrer com lesões. Ou vice-versa. Mas, de certo, não esperava que ambos tivessem estes problemas ao mesmo tempo. 

Impossível culpar Randy Carlyle por ter oito jogadores no IR. Óbvio que um estrago deste tamanho afetaria qualquer time e qualquer treinador. Porém, o problema físico da equipe expôs um erro estratégico, ou mais, a ferida que o sucesso causa à qualquer hegemonia na era do salary cap. O técnico simplesmente não tem peças à altura para tapar as lacunas. Algumas delas que já existiam com os jogadores saudáveis. Somemos isso ao fato de que a NHL está completando a sua transição de estilo. Jogadores mais jovens, mais habilidosos, mais rápidos e mais técnicos estão tomando o lugar dos mais pesados, abafando o jogo de contatos e trombadas. Até as regras estão mudando para favorecer esta nova fase. O velho hóquei está dando passagem para um jogo que beneficia o entretenimento. E o que os Ducks têm a ver com isso? Tudo.

Com poucas excessões, a maioria dos times já está se atualizando. Times que historicamente tiveram seus passados ligados ao jogo de força, de intimidação, arrolho, como Boston Bruins, Montreal Canadiens, Philadelphia Flyers, New Jersey Devils, Vancouver Canucks, entre outros, estão completando esta transição. Mudando seus elencos e principalmente o sistema de jogo. Carlyle também foi obrigado a repensar e treinar uma nova forma de jogar. A proposta era incialmente a de se utilizar shifts mais curtos, mas o velho dump and chase ainda está presente toda vez que o time tem dificuldades para manter a posse do disco. 

Sofrendo do mesmo mal do seu maior rival, o Los Angeles Kings, o nosso Ducks ainda é um time pesado. Não adianta o treinador tentar mudar o estilo com as mesmas peças. Por isso, as saídas de Jared Boll, Chris Wagner, Kevin Bieksa e François Beauchemin. Mas, escorrer para dentro do gelo uma enxurrada de jovens ao mesmo tempo, não é a melhor saída. Alguns deles já deveria estar maduros para ingressar na liga e infelizmente, não parecem prontos. A outra turma se divide entre apostas em jogadores que se destacaram durante a pré-temporada e prospectos emancipados prematuramente.  

Nenhuma outra equipe na liga hoje - nem as que assumiram o rebuild -, alterou tanto uma formação como os Ducks. Em uma mesma noite lá para o meio de outubro, a equipe entrou com Isac Lundeström, Brian Gibbons, Kiefer Sherwood, Ben Street, Carter Rowney, Maxime Comtois, Troy Terry, Sam Steel. Isso só no ataque. Agora já tivemos o retorno de Patrick Eaves, Ryan Getzlaf e Ryan Kesler ao time principal, mas com eles também subiram Pontus Aberg - que chegou a ser colocado em waiver, mas retornou jogando bem -, Sam Carrick e Joseph Blandisi. Nenhum titular na temporada passada. É uma mudança muito agressiva. Portanto, é perfeitamente aceitável que Bob Murray e Randy Carlyle sejam vítimas das circunstâncias. O que não nos impede de criticá-los.

Erros administrativos acontecem. Mas, Murray ainda tem crédito porque não se desfazer de craques do gabarito de Getzlaf e Perry. A janela deles já está fechando tem alguns anos, mesmo assim, o potencial da equipe e o talento deles imputa uma sobrevida que se renova automaticamente em outubro a cada 12 meses. Ambos abocanham cerca de US$ 17 milhões do orçamento anual do elenco e cumprem contratos longos que só se encerrarão em 2021. É bem possível que os Ducks já estejam estudando um buyout para Perry, uma vez que trocar o jogador com a idade avançada, um contrato pesado, a produtividade despencando e o histórico de lesões recentes, fica praticamente impossível. 

Claro que alguns torcedores, assim como eu, andaram se perguntando: Oras, por que Murray fez um contrato tão longo com eles então? Eu entendo que existiram críticos na época da renovação de Perry e Getzlaf - e que hoje se gabam em dizer que haviam alertado anteriormente sobre o risco de se tornarem elefantes brancos dentro do roster -, mas Murray tinha que desenhar qual seria o caminho do time no futuro e optou pelo mais sensato. Renovar com eles era obrigatório, tanto que na temporada da renovação e na seguinte também, ambos carregaram os companheiros nas costas com números fantásticos. 

Se analisarmos o trabalho de Murray, este tem sido coerente. Hoje criticada, a defesa dos Ducks já foi objeto de muitos elogios, sendo considerada uma das mais virtuosas em termos de valor econômico. Existe um potencial incrível em Cam Fowler, Hampus Lindholm, Josh Mason, Brandon Montour - todos que ainda estão hoje no elenco principal -, mais Shea Theodore (Vegas Golden Knights) e Sami Vatanen (New Jersey Devils). No entanto, Murray foi obrigado a utilizar Theodore para proteger Jakob Silfverberg dos Golden Knights e ainda se livrou de Clayton Stoner numa negociação hábil, e também utilizou Vatanen para trazer Adam Henrique, central que tem talento para atuar nas primeiras linhas e dividir a responsabilidade ofensiva do time. A pergunta que fica agora para Murray é: E agora? 

Com os talentos envelhecidos, contratos longos, e um time capenga, qual seria a melhor solução? Morrer abraçado com o amigo Randy Carlyle - que faz um trabalho questionável para dizer o mínimo -, ou colocar a culpa no treinador, demiti-lo para tentar convencer os Samuelis de que o time pode ser competitivo com um novo comandante no vestiário, como fez o Los Angeles Kings e o Chicago Blackhawks? Não que Carlyle seja incapacitado para fazer este time vencer partidas, mas Murray adoraria ver um treinador capaz de fazer estes jovens emancipados brilhando no elenco principal o quanto antes. 

Certamente, Joel Quenneville teria a casca necessária para dar este tempo a Murray. Porém, além do salgado valor contratual do treinador, acredito que dificilmente ele teria interesse em assumir este desafio. Alguns jornalistas insiders comentaram esta semana sobre uma possível negociação com o Chicago Blackhawks para dividir o contrato do Coach Q que ainda tem outros dois anos de duração. Seria algo inédito na liga. 

Se for de interesse mútuo que Quenneville se mude para a Califórnia, uma negociação com o time de Chicago para abater a diferença restante no contrato de Carlyle - que dura só até o fim deste ano -, poderia ser estudada. Curiosamente, Coach Q só dirigiu times do oeste em sua longa e vitoriosa carreira na NHL. Bom sinal para os otimistas de plantão.

Porém, Carlyle pode terminar a temporada como treinador ainda e não tem ninguém mais interessado do que ele em tentar provar que pode continuar desenvolvendo os jovens e quem sabe renovar outra vez? Dallas Eakins vem fazendo um bom trabalho com o San Diego Gulls na AHL e se o desenvolvimento dos jovens for mesmo o assunto principal, seu nome vai entrar com força entre os candidatos para a vaga em Anaheim. Não nos esqueçamos de Alain Vignault que deixou o New York Rangers tem pouco tempo. Se Murray decidir pela mudança de treinador, estes serão os principais candidatos no momento.

A verdade é que esta temporada dos Ducks pode terminar com apenas duas alegrias: A estreia do lindo terceiro uniforme com uma homenagem ao antigo logo dos Mighty Ducks, algo que por anos foi um pedido da torcida - e que hora mais oportunista para deixar o torcedor contente algo aleatório uma vez que a conversa sobre o título seria leviana -, e uma troca de treinador, que represente uma nova era em Anaheim.

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